domingo, 1 de março de 2009

UMA EXPERIÊNCIA NO ALBERGUE

ALBERGUES: “O OLHAR DA PSICOLOGIA SOBRE A VIVÊNCIA DE PESSOAS INTITUCIONALIZADAS.”

Por: Cynthia Marsola - Trabalho realizado em estágio (06/2007)

INTRODUÇÃO: Desde a Idade Antiga, o diferente causava uma certa repugnância e uma ameaça à sociedade e eram vistos como sendo fruto de uma influência externa delineando a concepção de loucura. Na Idade Média, qualquer pessoa que não aceitava o que estava descrito na Bíblia ou que se diferenciava da Igreja Católica era um herege, logo, mais uma fase da história em que o diferente era excluído. Na Idade Moderna, acabavam sendo comercializados ou então, sendo motivo de diversão como sendo os bobos da corte – sendo considerados como doentes mentais. Portanto, torna-se extremamente relevante este período da história para que possamos compreender e entender melhor todo o andamento do psíquico da humanidade e os porquês de certas atitudes que vigoram até os dias atuais.

Segundo Guilhon de Albuquerque (citado por Guirado1987), a instituição não é um lugar no espaço ou uma organização em particular, mas, um conjunto de práticas ou de relações sociais concretas. Trabalhar com psicólogo Institucional não seria, portanto, trabalhar no espaço físico de uma instituição, seja ele qual for, reeditar a compreensão é a técnica de trabalho da relação psicoterapeuta/cliente, examinador/examinando, selecionador/selecionado. Seria sim, trabalhar com relações de determinada prática institucional. “A análise institucional é, ao mesmo tempo, uma disciplina, que trata dos processos ideológicos e de poder que têm lugar em instituições concretas, uma política de intervenção psicossocial em instituições, organizações e grupos, e um movimento destinado a programar a doutrina institucionalista e a transformar a realidade.”

Portanto, a solicitação e/ ou aceitação de uma intervenção psicológica depende do tipo de reconhecimento que a instituição elabora, tanto com respeito à sua “necessidade” de um psicólogo, quanto com relação ao papel que este profissional deverá desempenhar. Bleger (citado por Guirado,1987) aborda a questão da burocracia das Organizações como tendo respaldo nesta estruturação particular da personalidade e, portanto, nas condições da relação interpessoal e grupal. Assim, podemos dizer que a organização faz parte da personalidade, que o grupo e a organização são a personalidade de seus integrantes.

OBJETIVO E RELEVÂNCIA SOCIAL

Segundo a pesquisa de Janaína Machado Simões (2004), o Projeto Oficina Boracea é uma iniciativa da Prefeitura Municipal de São Paulo que visa atender à população em situação de rua.

O programa estabelece parcerias com órgãos públicos e da sociedade civil, propondo ser um referencial no setor, inovando no atendimento à população citada. Cerca de 1.000 pessoas usufruem diariamente dos serviços de arte, cultura e educação. Funcionando 24 horas por dia, o programa busca sempre a preservação da dignidade e individualidade. Porém, é imprescindível serem destacados os grandes pontos fortes do projeto, que dizem respeito principalmente à: heterogeneidade das organizações envolvidas, à forma de gestão, à diversidade e qualidade dos serviços prestados e ao oferecimento de oportunidades de reinserção aos indivíduos em situação de rua. Você poderia imaginar uma vida sem outras pessoas? A vida humana é eminentemente social, um exerce influência sobre o comportamento do outro, simplesmente pela observância de determinadas atitudes. Diante de tudo isto, o projeto tem como finalidade o incentivo e a esperança àqueles que ainda estão a caminho da saída desta situação – as ruas.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A proposta de prevenção e promoção de saúde nas organizações enfatiza a receptividade e a observação voltada para o olhar clínico. Desta forma, foi nos apresentado estar desenvolvendo uma tarefa no Instituto Cirineu, Albergue Ueze Zahran, com a demanda de: moradores de rua, com deficientes físicos e alguns vindos de hospitais psiquiátricos. Entretanto, ocupar este lugar de estagiária de forma singular a uma população em total “abandono”, (descuido) e total carência, enfatiza o quão humana é a tarefa de estarmos aptas a doar-nos e nos desprender do nosso eu e, se ver no eu do outro. Porém, devido às normas burocráticas institucionais e as limitações que não cabem a nós, fomos transferidas para outra instituição - o Albergue Boracea.

Fomos bem recebidas, e a perspectiva de “trabalho” sobretudo do grupo foi mais dinâmica quanto ao esperado. Assim, devido a vários percalços o objetivo que era de nos ater ao primeiro contato enquanto estagiárias/profissionais de saúde em instituições - nos trouxe uma experiência muito enriquecedora e uma compaixão ao que o outro nos relata que, muitas vezes são incompreendidos e ignorados por “ter” alguma deficiência, ou seja, ser o diferente dentro de uma sociedade que caracteriza e distingue o normal do patológico. Embora nossa observação de trabalho do psicólogo/intervenção evidencia uma nova possibilidade de mudança a essa população de “miséria humana”, nos sentimos muitas vezes impotentes sem saber de fato por onde começar uma “ajuda”. Mesmo assim, gostaríamos de ter tido mais oportunidades práticas, que infelizmente não pudemos realizar de todo, embora as atividades tivessem sido programadas. Bleger aponta que “o psicólogo é definido como um profissional da saúde e não da doença. Ou seja, à postura que ele atua diferencia nos demais lugares da instituição”.

REFERÊNCIAS:

BUSTOS, Dalmiro M. O Psicodrama: Aplicações da Técnica Psicodramática / 3º ed./ São Paulo: Ágora, 2005.

GONÇALVES, Camila Salles, Lições de Psicodrama: Introdução ao pensamento de J.L. Moreno / Camila Salles Gonçalves, José Roberto Wolff, Wilson Castello de Almeida – São Paulo: Ágora, 1988.

GUIRADO, Marlene, Psicologia Institucional – Temas Básicos de Psicologia / v.15 / EPU, 1987. LANE, Silvia T. Maurer, O que é Psicologia Social - 22º ed. / Coleção Primeiros Passos, Ed. Brasiliense, São Paulo, 1994.

SIMÕES,Janaína,Machado,www.inovando.fgvsp.br/conteudo/documentos/20experiencias2004–pesquisado em 18/06/2007 -SERRANO, Alan Indio, O que é Psiquiatria Alternativa – 7º ed./Coleção Primeiros Passos, Ed. Brasiliense São Paulo: 1992.