domingo, 1 de março de 2009

DEFICIÊNCIA? QUEM NÃO TEM...


“ATITUDE HUMANITÁRIA SOBRE A DEFICIÊNCIA: FRATERNIDADE IRMÃ CLARA (FIC).”

Por Cynthia Marsola - Trabalho realizado em estágio (06/2008)


RESUMO

A escolha por este tema foi devido a minha intenção em querer compreender como fica o profissional e a família, que vem em busca de melhores condições na qualidade de vida de um membro em seu contexto diferenciado, e, na maioria das vezes, o filho.
Compreensão esta que poderá ser um apoio afetivo, emocional, psicológico para suportar e superar todas as suas frustrações e expectativas de uma suposta “cura” para este membro.
Será que este profissional terá todas as condições estruturais em sua personalidade para superar limites e, conseguir auxiliar este núcleo familiar diferenciado por conta de uma demanda que a própria sociedade tenta encobrir, excluindo-o? E esta mãe, como será que tem enfrentado tamanha situação, já que desde a gravidez idealizou um bebê perfeito, e de repente, sem estar preparada, depara-se com uma criança diferente, com deficiência, o que fazer, como fazer e quem procurar?

Para Shakespeare (citado por Santos 1993), as deficiências ocorrem ou se tornam óbvias em diferentes épocas da vida de uma pessoa. Há indivíduos que já nascem com uma deficiência e, em outros casos, a deficiência pode ser adquirida através de acidentes ou deformidades. (...) A maioria dos casos de Síndrome de Down e de deformidades físicas é reconhecida quando a criança nasce, mas numerosas deficiências só se evidenciam ao longo do desenvolvimento emocional, motor, cognitivo e social.

Segundo Farber (citado por Santos 1993), quando a deficiência mental é percebida
pelas famílias como um evento incontrolável, podem ocorrer dois tipos de crises. Uma delas é a crise trágica que se caracteriza pela frustração de objetivos e aspirações da família. A outra é a crise de desorganização de papéis que se caracteriza por uma perturbação no ciclo de vida familiar.

Segundo Glat (1999), o trabalho com o deficiente mental, ou qualquer outro tipo de deficiente, pode ser altamente estressante e ameaçador, porque, como lembra o eminente psicanalista francês Pierre Fédida (1984), o deficiente nos remete à nossa própria fragilidade, à nossa própria deficiência, à percepção de nossa própria experiência fragmentada. Esta representação simbólica que o relacionamento com o deficiente provoca, ocasiona no terapeuta, como não poderia deixar de ser, um processo de contra-transferência que traz à tona uma série de emoções que interferem -- principalmente se delas ele não tem consciência -- em sua relação com o cliente.

Junior e Messa (2006) diz, os pais projetam uma criança em suas mentes e, desde o princípio da gravidez, fantasiam (...). E o lugar desta criança na família é determinado pelas expectativas que os progenitores têm sobre ela.
O nascimento de uma criança com deficiência, portanto, confronta toda a expectativa dos pais, e a família é acometida por uma situação inesperada. Os planos de futuro para essa criança são abdicados, e a experiência de parentalidade deve ser ressignificada.
Por várias dificuldades acarretadas e acumuladas dentro destas famílias, que passam por situações traumáticas diante de um nascimento não esperado, tentarei compartilhar algumas experiências minhas dentro de uma instituição, visando o lado específico dos cuidadores e depois ampliando para a família.

INTRODUÇÃO

Nossa proposta de estágio está voltada inicialmente para a observação in loco na instituição, com a possibilidade de uma intervenção. Entretanto, uma nova possibilidade me foi concedida e, então, este estudo passou a ter como objetivo geral, o levantamento de dados sobre a instituição e entrevistas com profissionais de diversos setores. A instituição, abriga crianças portadoras de paralisia cerebral (PC), que pertence a camadas populares.

Para Coll e Marchesi (2004), as formas de (PC) podem ser classificadas por seus efeitos funcionais e pela topografia corporal. De acordo com os efeitos funcionais, os quadros clínicos mais freqüentes são a espasticidade, a atetose e a ataxia, e, como quadros menos freqüentes, ocorrem a rigidez e os temores. Deve-se levar em conta que raras vezes se apresenta em uma criança uma tipologia pura, mas quadros mistos. De acordo com a topografia corporal, pode-se falar de paraplegia, tetraplegia, monoplegia e hemiplegia.

Embora as crianças com PC manifestem muitas vezes uma capacidade extraordinária de compensação e de substituição com relação ao que se considera como mecanismos essenciais para o desenvolvimento cognitivo suas limitações para explorar e manipular o ambiente, para falar, escrever, etc. Podem significar em muitos casos que, sem os suportes pedagógicos adequados, esses alunos não consigam efetivar suas potencialidades intelectuais.
Este autor ainda cita, como idéias gerais, vale destacar que a educação do aluno com PC terá de ser sempre um trabalho em equipe, na qual o professor atue em estreita colaboração com outros profissionais, entre os quais encontraremos quase sempre o fisioterapeuta e o logopedista. Muitas vezes farão parte da equipe o terapeuta ocupacional, o psicólogo e o médico reabilitador ou outros especialistas.

Em se tratando de crianças com PC, a colaboração e o trabalho psicopedagógico com os pais e ou cuidadores próximos da criança é de extrema relevância, para que o desenvolvimento seja mais agradável e que o núcleo familiar possa compartilhar com o membro suas dificuldades e suas limitações, aproveitando ao máximo suas potencialidades.

REFLEXÕES SOBRE A EXPERIÊNCIA DE ESTÁGIO

Todo novo começo gera medos, medos estes que muitas vezes não saberemos o que iremos fazer, o que iremos encontrar e se conseguiremos lidar com o que poderá ou não vir a acontecer. Diante disto, será que o nosso emocional sobreviverá, e como reconhecer se posso ou não enfrentar minhas limitações se não me deparar com este novo, com a deficiência.

(texto recebido pela internet sem assinatura, 2006).

“Você tem experiência?”

Já fiz cosquinha na minha irmã só pra ela parar de chorar, já me
queimei brincando com vela. Eu já fiz bola de chiclete e melequei
todo o rosto, já conversei com o espelho, e até já brinquei de
ser bruxo. Já quis ser astronauta, violonista, mágico, caçador
e trapezista. Já me escondi atrás da cortina e esqueci os pés pra fora.
Já passei trote por telefone. Já tomei banho de chuva e acabei
me viciando. Já roubei beijo. Já confundi sentimentos.
Peguei atalho errado e continuo andando pelo desconhecido.
Já raspei o fundo da panela de arroz carreteiro, já me cortei fazendo
a barba apressado,já chorei ouvindo música no ônibus.
Já tentei esquecer algumas pessoas,mas descobri que
essas são as mais difíceis de se esquecer.
Já subi escondido no telhado pra tentar pegar estrelas,
já subi em árvore pra roubar fruta, já caí da escada de bunda.
Já fiz juras eternas,já escrevi no muro da escola,já chorei
sentado no chão do banheiro,já fugi de casa pra sempre, e voltei
no outro instante. Já corri pra não deixar alguém chorando,já
fiquei sozinho no meio de mil pessoas sentindo falta de uma só.
Já vi pôr-do-sol cor-de-rosa e alaranjado, já me joguei na piscina
sem vontade de voltar, já bebi uísque até sentir dormentes os
meus lábios, já olhei a cidade de cima e mesmo assim não
encontrei meu lugar. Já senti medo do escuro, já tremi de nervoso,
já quase morri de amor, mas renasci novamente pra ver o
sorriso de alguém especial. Já acordei no meio da noite e fiquei
com medo de levantar.
Já apostei em correr descalço na rua, já gritei de felicidade,
já roubei rosas num enorme jardim. Já me apaixonei e achei que
era para sempre, mas sempre era um "para sempre" pela metade.
Já deitei na grama de madrugada e vi a Lua virar Sol,
já chorei por ver amigos partindo, mas descobri que logo
chegam novos, e a vida é mesmo um ir e vir sem razão.
Foram tantas coisas feitas, momentos fotografados pelas
lentes da emoção,guardados num baú, chamado coração.
E agora um formulário me interroga, me encosta na parede e grita:
"Qual sua experiência?"Essa pergunta ecoa no meu cérebro:
experiência... experiência...
Será que ser "plantador de sorrisos" é uma boa experiência?
Não! Talvez eles não saibam ainda colher sonhos! Agora
gostaria de indagar uma pequena coisa para quem formulou
esta pergunta: "Experiência? Quem a tem, se a todo momento tudo se renova?"

Um novo significado foi dado para esta nova experiência e faço das palavras deste texto como minhas, para expressar um pouco o que sinto.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Para que possamos compreender um sujeito necessitamos compreender seu contexto inserido, ou seja, seu núcleo familiar, suas relações e inter-relações, seja ele qual for, e então, teremos condições de compreendermos a respeito das suas dificuldades.

De acordo com Lane (2004), a família tende a ser sempre tão preservadora, ou, melhor dizendo, tão conservadora; pois as relações de poder que caracterizam os papéis familiares são sempre apresentadas como condições naturais e necessárias para a sobrevivência dos filhos, como condições biológicas, não se distinguindo o que é determinado histórica e socialmente do que é fisicamente necessário para a preservação da espécie.

E segundo Bleger (citado por Guirado,1987), o indivíduo não nasce no isolamento para vir a desenvolver uma sociabilidade, o que existe a princípio é a diferenciação entre o eu e o outro, como ponto de partida para o desenvolvimento.
Segundo conceitos do IBGE,considera-se como família o conjunto de pessoas ligadas por laços de parentesco, dependência doméstica ou normas de convivência, que residissem na mesma unidade domiciliar e, também, a pessoa que morasse só em uma
unidade domiciliar. Entendeu-se por dependência doméstica a relação estabelecida entre a pessoa de referência e os empregados domésticos e agregados da família e por normas
de convivência as regras estabelecidas para o convívio de pessoas que morassem juntas sem estarem ligadas por laços de parentesco ou dependência doméstica. Definiram-se como famílias conviventes aquelas constituídas por, no mínimo, duas pessoas cada uma, que residissem na mesma unidade domiciliar.

Segundo Santos (1993), para que possamos compreender a necessidade do
atendimento à família do deficiente, é interessante caracterizar o quadro de sofrimento desta, que tem início a partir do momento em que é reconhecida a condição de seu filho afetado.
Visto os olhares de vários autores sobre o que é a instituição familiar e suas relevâncias, segue-se uma que abordo com mais sutileza e respeito por trazer uma realidade que muitas vezes se torna complexa e em crise. Principalmente, quando estas diferenças são visíveis e expressas em nossa sociedade como o diferente sendo, “o coitadinho” ou “o incapacitado”.

Amiralian (1986), aponta a maioria das famílias tem pouca experiência em lidar com uma estrutura familiar que necessita de mudanças, principalmente porque a chegada de um filho que é diferente gera muitas crises, e aceitar um filho excepcional implica em reorganizações de valores e objetivos, e que muitas vezes a família não está preparada para tal mudança. Além do problema específico de aceitação da criança, os pais enfrentam dificuldades com os outros membros da família: o tempo que a mãe dedica ao seu filho divergente, em detrimento dos outros membros da família, principalmente dos outros filhos, pode vir a constituir uma séria dificuldades no relacionamento familiar.
A autora ainda frisa que a primeira etapa de orientação familiar consiste em auxiliar os pais a uma aceitação emocional da criança excepcional, que pode ser definida como a concordância entre os fatores internos (sentimentos dos pais) e os fatores externos (a realidade da situação). Só então os pais terão condições de propiciar situações que favoreçam o desenvolvimento pleno de seus filhos.
Reflito e trago como aprendizado concreto com base no tratamento visto dentro da instituição, que além da parte teórica à respeito do que vem a ser a deficiência com a qual iremos trabalhar é primordial a compaixão, a dedicação e o amor com todos que estão a nossa volta, principalmente o comprometimento com os assistidos de reconhecer que muitas vezes um olhar, um toque, uma palavra, a paciência, o saber esperar o momento dele e não o nosso são ferramentas de desenvolvimento e capacitações de melhora para este indivíduo que mesmo sendo diferente em alguns aspectos, em outros se torna igual a nós, afinal é um ser humano e precisa de no mínimo respeito.

Aprendi muito com a realização deste estágio, e agradeço a oportunidade de ter experienciado o contato com outros cuidadores.
Concluo, que todo aquele profissional que reconhece em si suas limitações e suas impotências na íntegra, está preparado para trabalhar onde quer que seja com amor, paciência e humildade, desenvolvendo sempre o seu melhor.

REFERÊNCIAS:

-AMARAL, L. A. Conhecendo a deficiência; em companhia de Hércules. São Paulo, Robe.1995.

-AMARAL, L. A. Pensar a diferença/deficiência; Brasília, CORDE. 1994.

-AMIRALIAN, M.L.T.M. Psicologia do excepcional. - São Paulo: EPU,1986. p.45-52

-COLL,C.; MARCHESI, A.; Palácios & Colaboradores, Desenvolvimento Psicológico e Educação. 2 ed. Porto Alegre: Artmed, 2004. 3v. p.215-233.

-GLAT,R. Refletindo Sobre o papel do psicólogo no atendimento ao deficiente mental: além do diagnóstico - Psi -Revista de Psicologia Social e Institucional, V.1, Nº1 – Jan. 1999.

-GUIRADO,M. Psicologia Institucional. - São Paulo: EPU,1987.p-15 ; 25-35

-GULA,P.; PINHEIRO, N. (2006) Entre o limite e a esperança: Relato de uma experiência em psicologia institucional. Psicologia: Ciência e Profissão. 2007,27(2), 358-366.

-JUNIOR,F.A.G.; MESSA, A.A. (2006) Pais, filhos e deficiência: estudos sobre as relações familiares. Psicologia: Ciência e Profissão. 2007,27(2), 236-245.

-LANE,S.T.M. O que é psicologia social - São Paulo: Brasiliense, 2004. p- 45

-MASINI,E.A. F.S; BECKER, E; PINTO, E. B. 7 AMARAL, L. A. Deficiência: Alternativas de Intervenção. São Paulo,Casa do Psicólogo, 1997.

-ROTTA,T.N. Paralisia cerebral, novas perspectivas terapêuticas. Jornal de Pediatria, Sociedade Brasileira de Pediatria. Vol. 78, Supl. 1/ S.48- 54, 2002.

-SANTOS,E.F.R.R. Atendimento às Famílias de Deficientes: uma análise das propostas institucionais a partir dos relatos de profissionais que atuam na área – Universidade Federal de São Carlos, 1993 (Dissertação de Mestrado).

www.unipaz.pt/artigos - (Acesso em 13, de maio de 2008).
http://www.ficfeliz.org.br/ – (Acesso em 20, de maio de 2008).
"http://www.ibge.org.br/" www.ibge.org.br href="http://www.ibge.org.br/"- (Acesso em 26, de junho de 2008).