quinta-feira, 13 de setembro de 2012

A alfabetização da alma

-- Reportagem --

Roberto Crema - (Revista Correio Braziliense - 09/09/2012)

Maria Júlia Lledó (Jornalista)


À sombra de uma árvore, sentado no alto da escada da Casa do Silêncio, na Universidade da Paz, o psicólogo e antropólogo Roberto Crema indagou: "Para onde caminha a ecologia social? E o que estamos fazendo a respeito?" Entender o tema, que será discutido de 14 a 16 em um seminário na Unipaz, é necessário ir além do lugar comum. Definida no dicionário Houaiss como "ciência que estuda as relações dos seres vivos entre si ou com o meio orgânico ou inorgânico no qual vivem", a ecologia pintada de verde pelos ambientalistas abrange outras cores e significados. O termo ecologia social, cunhado no fim do século 19 pelo geógrafo Elisée Reclus, é conhecido hoje pela interpretação conferida, na década de 1960, por Murray Bookchin. O filósofo afirmou que os problemas do meio ambiente estariam profundamente assentados em problemas sociais. Quer dizer, as ações da sociedade seriam capazes de provocar consequências positivas ou negativas na natureza. Reitor da Unipaz — espaço que há mais de duas décadas instrui aprendizes de diferentes carreiras a praticar uma postura holística na vida, no trabalho, na sociedade e no meio ambiente —, Roberto reflete sobre esse cenário. Com mais dúvidas que respostas prontas, questiona-se quanto ao caminho que tomamos diariamente, os resultados das escolhas individuais e a maneira como interagimos em grupo. À Revista, explicou melhor o que seria essa ecologia de carne e osso.
O que quer dizer ecologia social?
Primeiro, devemos pensar na ecologia em três esferas: a individual, a social e a ambiental. A ecologia individual tem a ver com as diversas dimensões do ser humano, com o corpo e a psique, enquanto a ecologia social corresponde a um cuidado com os outros e com o meio à volta. Nesse aspecto, dizemos que a saúde na ecologia social é sinônimo de justiça. Hoje, vivenciamos uma grande crise global, uma exclusão social, uma injustiça crônica, entre outras questões graves que pedem pelo cuidado de todos. Finalmente, a ecologia ambiental propriamente dita. Como dizia o poeta TT Catalão, "o meio ambiente começa no meio da gente."
Na prática, qual é o primeiro passo para um equilíbrio da ecologia social?
Mudar o mundo é mudar o olhar. De fato, a sociedade começa a se transformar nesse pedacinho de "praça pública" que cada um de nós encarna. Creio que a responsabilidade individual da transformação é introduzir ordem, harmonia, paz e saúde na ecologia social. Tudo começa na ecologia individual — nós, automaticamente, transpiramos aquilo que vivenciamos. A ecologia social é esse espaço onde habitamos: a família, que é uma célula de uma comunidade, que por sua vez é uma célula de uma nação que se encontra em crise. Uma crise bastante vasta porque nós sabemos que um dos grandes flagelos da ecologia social é a exclusão. Milhões de seres humanos estão excluídos e vivem abaixo do nível de pobreza. A maioria morre de fome e a minoria morre de medo de quem morre de fome. Mesmo assim, acredito que há boas notícias.
E quais são essas boas notícias?
Gosto de lembrar uma história que aprendi com um amigo, o rabino Nilton Bonder. Um dia, ele reuniu sua comunidade e disse: "Eu tenho uma boa e uma má notícia. A má notícia é que o teto da sinagoga está para desabar e isso vai nos custar 30 mil dólares. A boa notícia é que nós temos recursos para empreender a construção." Na mesma hora, alguém lhe perguntou: "E onde estão esses recursos, senhor?" Ele respondeu: "No bolso de vocês." Ou seja, nesse momento há uma má notícia, algo está desabando: um sistema que é insustentável do ponto de vista da ecologia ambiental, tendo em vista que estamos extraindo muito mais do que a natureza pode nos prover. Hoje, esse conceito de sustentabilidade é sabido de todos. Tanto que vimos as discussões no Rio de Janeiro, palco da Rio+20, no último semestre. Isso pede por uma iniciativa política emergencial. Sabemos que há dificuldades. A situação atual é mais grave que há 20 anos, na Eco 92. A ecologia individual em um cidadão precisa começar já. A única forma para contribuirmos efetivamente é introduzir qualidade no interior de nós mesmos. A natureza está no nosso interior e à volta. Precisamos cuidar do corpo físico, mas esse é só o da matéria — cada um de nós tem uma morada habitada por uma alma ou psique, que também precisa ser nutrida com pensamentos de qualidade. A partir dessa ecologia individual, cada um passa a ser um agente de saúde, contribuindo com sua família, seus vizinhos, sua comunidade.
Como definir a saúde integral?
O conceito da Organização Mundial de Saúde é de que saúde não é simplesmente a ausência de sintomas, mas a presença de um bem-estar psíquico, social, ambiental e espiritual — um conceito absolutamente holístico. Há três décadas, a própria OMS disse que todos precisamos ser agentes de saúde porque o planeta está enfermo. Então, da nossa parte, estamos buscando ressignificar esse conceito de terapia e de terapeuta. Se formos buscar a origem da palavra terapeuta, você vai se deparar com a tradição hebraica, com o início da nossa civilização judaico-cristã há mais de 2 mil anos. Eles eram ao mesmo tempo filósofos, sacerdotes, médicos e psicólogos. Os seus templos eram hospitais, escolas e jardins onde se cultivava esse potencial de excelência humana. Buscamos resgatar esse conceito. O que é um terapeuta? É alguém que cuida, não alguém que cura. É a natureza que cura — nossa função é cuidar. Já que nosso estado de saúde envolve um bem-estar psíquico, social, ambiental e espiritual, isso envolve todos nós. A tarefa do cuidado precisa ser democratizada. Precisamos de empresários terapeutas, de políticos terapeutas, de professores terapeutas para cuidar da ecologia social.
No entanto, o que vemos é uma descrença geral. Por quê?
Muitas vezes, nós achamos que não somos capazes de uma transformação social. As revoluções históricas fracassaram porque as pessoas tentaram mudar o mundo antes de tudo. Os verdadeiros líderes são aqueles que se transformaram primeiro. Escutaram o axioma dos antigos gregos: "Conheça-ti a ti mesmo e conhecerás o teu senhor." Na medida em que uma pessoa se transforma, ela passa a ser uma inspiração para os outros. A dificuldade de os jovens se crerem agentes da mudança faz parte de um certo desecantamento pelo qual estamos passando. Tanto que aqui, na Unipaz, promovemos a formação holística dos jovens, na qual falamos da totalidade do ser humano, da função de cada um como protagonista. Aqui, desenvolvemos o conceito da normose, da patologia da normalidade. Esse conceito é importante e está na fonte desse desencantamento.
O que seria a normose?
Uma patologia que surge quando o ambiente onde vivemos se encontra mórbido, injusto, doente, no qual perdemos a escuta, a noção do cuidado, onde a violência predomina e a corrupção faz parte do cotidiano. Passamos a aceitar tudo isso como se fosse algo normal. Então, a pessoa tida como normal, quando o sistema no qual vivemos é dominantemente desequilibrado, não é uma pessoa saudável, mas uma pessoa doente que mantém o status quo. Assim como a paz não é a ausência de conflito, a saúde não é a ausência de sintomas. Veja que algumas pessoas ditas saudáveis na sociedade apresentam sintomas quando precisam apresentar indignação, perturbação e angústias diante desses descaminhos. Existe a normose social, a pedagógica, a normose na saúde, na política, na governança. E os jovens percebem isso. Eles também não estão interessados em nossos sermões ou em alguém que diga a eles o que fazer. Os jovens estão interessados em testemunhos.
Então, o estado de normose é prejudicial à ecologia social? Qual seria o caminho para sair desse estado?
Não sou otimista nem pessimista. Tenho aprendido que ninguém transforma ninguém e ninguém se transforma sozinho. Nós nos transformamos no encontro. Acredito numa pedagogia, numa terapia de encontro. E os jovens, quando estão no contexto em que podem exercitar a autenticidade, falar do emocional, quando são convidados a entrar em contato com o universo dos sonhos — completamente desprezado na escola — podem sair desse estado. Mas para que haja uma cultura de paz nessa ecologia social, precisamos de uma educação integral. Uma educação que não meramente forme a pessoa para passar em vestibular. Uma educação integral é aquela que não apenas educa o cérebro, mas educa a alma. Há mais de 20 anos, falamos de três inteligências: a emocional, a relacional e a onírica, que está relacionada a um cuidado com os sonhos, que fazem uma reportagem do seu momento existencial e apontam direções criativas. Estou falando de uma alfabetização psíquica: colocar a alma nos bancos escolares. Uma educação integral não é apenas aquela que ensina a pessoa a crescer com as informações, mas aquela que ensina a discernir.
Você consegue manter em equilíbrio essas três ecologias?
Esse é um desafio diário. Nós sempre podemos dar o passo seguinte. Nunca estamos prontos, e a percepção do inacabamento é importante. Até o último suspiro, um ser humano pode aprender. Agora, nos bons momentos, sou capaz de silêncio, daí pode brotar uma paz interior e isso pode transpirar nas minhas relações. O importante é dar esse primeiro passo para a ecologia individual, que se irradia para a social e, logo, para a ambiental. Senão, veremos apenas esses descaminhos e desigualdades a que muitos se acostumaram. Gosto de dizer o seguinte: os antigos navegantes falavam que o pior naufrágio não está no enfrentamento das ondas do mar, do vento etc. O pior naufrágio é não partir.