sexta-feira, 11 de março de 2011

Futebol: amor, paixão e doença




Por
Marcelo Duarte Jatobá
(Jornalista e Colaborador do Projeto aqui no blog)


Amor é um sentimento incondicional. Isto todo mundo sabe. Que nada. Sabe nada. No futebol, como na vida de forma geral neste planeta, amor é confundido com paixão. Amor não cobra. Amor apóia, independentemente da situação e das condições do ser, do partido, da entidade ou do time ou clube amado. Mas, no futebol, como na vida, os valores estão trocados, confusos, fora de rota.

Sou palmeirense. Sei que meu amor pelo Palmeiras é incondicional. Não importa se está vencendo, se está perdendo, se conquista títulos, se sucumbe a questões políticas (e sucumbe, infelizmente). Para mim, no meu coração, o que importa é saber que o Palmeiras existe, que entra em campo. Pode até ser piegas, mas até choro quando vejo o Palmeiras entrar em campo. Pode ser para disputar um jogo decisivo ou um amistoso qualquer. Ver aquela camisa verde (ou amarelo fluorescente ou azul e branco com a cruz de Savóia no peito) me emociona.

Não sou admirador das torcidas organizadas. Sempre frequentei estádio. Sempre acompanho o Verdão. Tenho 39 anos. E vou aos estádios desde os 12. E digo que não sou admirador das organizadas porque já presenciei cenas lamentáveis nestes 27 anos de arquibancada. Em regra, membros da Mancha Verde (ou Alviverde), Gaviões, Independente, Torcida Jovem ou qualquer outra organizada vão aos jogos de futebol com o objetivo de brigar com seus rivais, encarados como inimigos.

Este é o único motivo que me faz pensar em parar de torcer. Gostaria muito de não ser palmeirense, porque fico triste quando um torcedor de outro time me enxerga como um fora da tribo, simplesmente por não torcer para o mesmo time. Ou quando um palmeirense enxerga o torcedor de outro time um fora da tribo. Dá na mesma. Qualquer movimento que estimule a divisão, a briga, a dor e a separação não deve ser levado a sério. Estamos neste planeta para somar, para ajudar, para trabalhar, para ser útil.

Infelizmente, poucas vezes vi o amor se sobrepor à paixão no futebol. Lembro de alguns momentos. Como palmeirense, lembro da derrota do Palmeiras, em pleno Palestra Itália, em 1997, para o Cruzeiro, na final da Copa do Brasil. O time alviverde foi guerreiro. Lutou até o fim. Perdeu. Faz parte do futebol. Mas, no fim do jogo, a torcida palmeirense, em pé, aplaudiu a luta do time, reconhecendo o esforço absoluto da equipe. Isto é amor.

Também lembro dos dois jogos das quartas-de-final da Libertadores em 1995. O Palmeiras perdeu para o Grêmio de Porto Alegre por 5 a 0 na primeira partida, no Olímpico. No segundo jogo, o Verdão venceu, em São Paulo, por 5 a 1, com garra, com raça, com luta, com entrega, com dedicação, com vergonha na cara. A vaga ficou com o tricolor gaúcho, que, apesar da classificação, saiu de campo de cabeça baixa, abatido. E a torcida, novamente, aplaudiu a equipe de pé, orgulhosa. Isto é amor.

Este ano, o Corinthians foi eliminado pelo Flamengo nas oitavas-de-final da Copa Libertadores. No entanto, o que os corinthianos no Pacaembu demonstraram, logo após a desclassificação, foi amor. O time foi eliminado. O sonho da Libertadores (e de algum título) no Centenário foi transformado em pesadelo. Ainda assim, a torcida reconheceu a luta do alvinegro paulista. Isto é amor. As torcidas de Palmeiras e Corinthians apoiaram, incondicionalmente, seus times, quando foram rebaixados. E fortaleceram a luta pelo retorno à divisão principal do futebol brasileiro. Mas estas mesmas torcidas que aplaudiram seus times nestas ocasiões já foram protagonistas de cenas lamentáveis, provocando até mortes.

Sou jornalista. Percebo que a imprensa é extremamente parcial. É uma pena. Esta parcialidade, até por parte de jornalistas renomados, estimula a divisão, as brigas. Grandes jornalistas, homens com idéias e ideologias sérias e elogiáveis, puxam a sardinha para a sua brasa. É uma pena. Talvez alguns defendam que a parcialidade venda mais jornais, dê mais ibope, dê mais audiência. Mas, se o objetivo da parcialidade for este, está todo mundo no mesmo patamar. No patamar ridículo dos resultados, independentemente das idéias.

Os seres humanos precisam, urgentemente, começar a entender a diferença entre amor e paixão. Amor é abdicação, é dedicação, é plenitude. Paixão é doença. E toda doença tem de ser curada.